sexta-feira, 9 de janeiro de 2015

Pensar a Pesca e... Variar!


A vida é uma aprendizagem... se estivermos abertos a aprender.

A pesca, como parte da vida não foge ao conceito acima, mas... uma das condições essenciais para se aprender é, sem dúvida, sermos capazes de assumir que podemos não ter elaborado bem as nossas reflexões e, em função de tal, termos optado por decisões que não foram as mais indicadas tendo, por consequência, cometido erros e até induzido outros nos mesmos quando tais opções se tornaram públicas por diversas vias.

Considerando o referido, importa contar pormenores, explicar, fundamentar..., de modo a que quem leia conheça os desenvolvimentos de tais factos e as razões das afirmações produzidas.

Na última entrada, antes das Boas Festas, se estão lembrados, falei-vos das razões que me levaram a eleger pesqueiros que, atendendo à época do ano e às informações conseguidas, supostamente teriam Douradas em passagem para as zonas de acasalamento e desova, tudo indicando pelos resultados obtidos que tal se verificava.
Ora, quinze dias depois, pensando que as "moças de ouro", já procuravam parceiros em mares de fora, foi para lá que me dirigi, procurando-as, e por lá andei três jornadas seguidas, em pesqueiros diversos, sem resultados. O mesmo aconteceu na semana seguinte, em mais quatro jornadas, também elas bem parcas de Douradas e até de outros exemplares.
Importa ainda referir que todos os lúdicos e profissionais que nesta época se dedicam a estes exemplares também não estavam a conseguir capturas tendo até os profissionais desistido das Douradas, por razões óbvias.

Algo me estava a falhar... as Douradas não podiam andar só por Vila Nova de Mil Fontes, Setúbal e Cabo Espichel, considerando os fundos de Sines e a presença das ditas em quase todo o ano por estas paragens. Algo me estava a passar ao lado e havia que rever razões, conceitos e tentar perceber o quê e quem sabe o porquê desta incapacidade de dar com "elas" na zona!?

As reflexões levaram-me aos resultados das últimas pescarias, pensando eu que, na convicção de que as capturas efectuadas nessa altura, fim de Novembro, a escolha de pesqueiro foi fundamentada pela habitual deslocação das "bichas" para os locais de desova, procurando pesqueiros de passagem, aos quais não tornei a voltar por pensar que já lá não estariam.
Foi então que me surgiu a questão: será que se mantiveram por lá e eu, embora com alguma fundamentação, andei a procurar no "deserto"?
Certo é que na pesca, como sabemos, nada é linear. Para além disso, sabia que ninguém insistiu mais nesses pesqueiros, mas também ninguém andava a capturá-las nos locais habituais.

Tais pensamentos, no passado dia 3 de Janeiro, primeiro de 3 em que estaria a pescar em Sines, levaram-me a decidir voltar aos pesqueiros que tinha eleito como "de passagem" e a coisa deu-se...

Acordei tarde, considerando as horas de pescadores que se prezam, recebi os meus amigos João Martins e Brás e ala para a pesca, procurando os tais pesqueiros de passagem onde, embora com marcações de sonda relativamente fracas, resolvi fundear dando-lhes conta das reflexões anteriores.

A acção de pesca iniciou-se morna, com toques esporádicos, tanto na Sardinha, quanto no Caranguejo, mas indicando que o pesqueiro alguma vida tinha e o peixe miúdo ou era pouco ou estava a comer a medo. Talvez por estar em presença de outros maiores que não se fazendo totalmente às iscas, eventualmente se tornavam incómodos pela proximidade!? Isto porque em alguns momentos as iscas eram roubadas rapidamente e, em outros, levavam o seu tempo até que fossem consumidas.

Não passou meia hora, até que entrou a primeira Dourada, vindo a pesca a compor-se ao longo do dia, com alguns bons exemplares, como a que vos mostro abaixo...


... culminando no conjunto interessante de capturas da imagem seguinte, quase, quase, no limite legal vigente.


Afinal não me enganei... pensava para comigo, Sines também as tem, embora em pesqueiros diversos e menos profundos (47/50m) que o habitual na época. Posso ainda dizer-vos que o Caranguejo foi a isca rainha, embora 3 ou 4 tenham caído à Sardinha.

Faltava então tornar ao pesqueiro e ver o que dava em dias consecutivos, pelo que no dia seguinte (4/Jan), lá tornei com outros amigos e lá as encontrámos de novo, não em tanta quantidade, talvez derivado a que, por via da posição do barco ter mudado ao longo dia, por duas vezes, fomos obrigados a levantar ferro e corrigir o fundeio, perdendo consequentemente tempo útil de pesca.

Deixo-vos o António que capturou um dos melhores exemplares deste dia.


Estava satisfeito comigo pela capacidade de voltar atrás, olhar em torno, perceber erros e alargar horizontes em termos de reflexões futuras.

Agora os porquês...

Nunca as Douradas andaram por este local, nesta altura do ano, ou pura e simplesmente não se procuraram por cá?

Analisando as características de fundos, pode concluir-se que exceptuando as profundidades mais usuais, estes entralhados a 50m, entre pedras com 3 a 5 metros de altura, até cumprem com os requisitos dos locais onde as "raparigas" gostam de namorar nesta época... quem sabe tem sido defeito dos pescadores não as procurarem por aqui!?
Convenhamos até que, antes de eu chegar, ninguém as incomodava e andavam à vontade tratando dos seus assuntos, sendo que tal faz de mim um "empata" face aos mesmos, o que pode em alguns momentos não me ficar muito bem... mas adiante.

Brincadeiras à parte, certo é que pensando, experimentando, errando e tornando ao processo, poderemos, em cada época, encontrar os melhores pesqueiros na procura das capturas pretendidas.

Tinha mais dois dias de pesca e, na verdade, sentia necessidade de mudar de pesca e de locais. Não sei bem explicar, mas se o mar deixar, coisa que este ano tem acontecido, gosto de variar de pesqueiros e até tipos de pesca.

Comentarão alguns de vós: então agora que deste com as Douradas, é que vais mudar de pesca? Isso é coisa que se faça?

Ao que responderei: Na verdade, e por ter a sorte de ter barco próprio, o problema está mesmo aí... ou seja, tinha procurado, procurado e nada... quando o mistério foi desvendado, desvendado estava e precisava procurar outro. Depois há aquela questão do "empata", bem... vai daí, após conversa com o meu amigo João Martins, decidimos procurar Pargos em pesqueiro novo e mais fora que o habitual. Porque não? Já tínhamos Douradas para família e amigos... Pargos com eles!

E que bom é sair a horas indecentes - 09.30/10.00 - pensando só no que gostava de encontrar nas leituras de sonda, em pesqueiros nunca antes por mim experimentados, para colocar em prática processos testados, com a premissa de que poderiam resultar.

Saímos, com um mar calmo... lindo, frio limpo e Sol brilhante, navegando à velocidade de cruzeiro, sem pressas, mar dentro, com o único objectivo de pescar bem.

Quase 5 milhas depois, parámos e vá de sondar um fundo que se apresentava com vida, numa cetomba de leve inclinação, entre os 80 e os 90 metros, com algumas pequenas elevações e à beira de uma queda para os 100. Perfeito... pensei para com os meus botões.

Fundeio terminado e vá de pescar ao fundo com estralhos e à chumbadinha.

O peixe ia roubando as iscadas generosas de Sardinha, indicando que muito podia acontecer.
Certo é que, ao longo do dia, os vermelhuscos foram entrando, três do tamanho que o imparável do meu amigo João aqui mostra e mais quatro um tudo nada mais pequenos, à mistura com alguns Besugos e Fanecas que não procurávamos mas nos encontraram.


A pesca acabou ainda composta por este Serrajão que resolveu atacar, na subida, um anzol já despido de isca, proporcionando aquela luta que se conhece e um petisco do outro mundo, quando a cebolada com um toque de vinagre o trabalhou. 


E assim foram estes 3 dias de pesca, em que o mar esteve uma delícia e as reflexões, decisões e processos bateram certos.

Pode talvez concluir-se que muitas vezes reflectimos bem, os sinais estão todos lá, pelo que, consequentemente, as reflexões, opções e processos, fundamentados em horas de pesca e mar pensadas, apresentam-se como factores de diminuição da influência da sorte/azar. Mas, na verdade, é o peixe que tem a última "palavra", parecendo-me ser a interpretação de tal "palavra" a nossa maior fonte de conhecimento, quando conjugada com uma determinada época, características de fundos dos pesqueiros escolhidos, condições específicas de mar e vento, e, muito importante, com a nossa elasticidade face a erros cometidos em avaliações anteriores.

Uma boa tarde a todos os leitores

10 comentários:

Roberto Vicente disse...

Caro Ernesto,

Começo por agradecer mais uma bela entrada, no ano novo e aqui neste blog...

Já tinha lido o relato lá no fórum, mas re-li, com todo o gosto, aqui também.
Encontra-se sempre uma frase ou outra diferente, o que demonstra o zelo, preocupação e, principalmente, trabalho com que o faz...

Aproveito para questionar o entendimento que faz, em relação ao limite legal de capturas, numa embarcação particular, onde se encontrem exatamente 3 pessoas em acção de pesca?
A lei acaba por ser pouco clara nesse sentido, pois, diz que sempre que num barco se encontrem mais de 3 pessoas a pescar, o limite total da embarcação sao 25kg.
Ora, digo que a lei é pouco clara porque, no meu entendimento, mais de 3 pessoas têm de ser 4 ou mais, é uma questão matematica...
Para mim, no meu entendimento da lei, se estiverem 3 pessoas a bordo pode-se apanhar 30kg + troféus.
Se estiverem 4 ou mais, só se pode apanhar um total de 25kg...

Um abraço e continue a ensinar que a malta agradece!
(Não me lembro de ter agradecido aos meus professores no meu tempo de estudante... Vá-se lá saber porquê?!)

Ernesto Lima disse...

Boa noite Roberto

Grato pelo comentário

Quanto ao limite de capturas, essa foi uma das melhorias da última portaria.

Até 3 pescadores a bordo de uma embarcação de recreio, cada um pode pescar 10kg + um exemplar maior.

Se forem 4 ou mais só podem capturar um total de 25 kg, dividido por todos + um exemplar cada por cada pescador a bordo.

Abraço

Roberto Vicente disse...

Boas,

Ou seja, resumindo e concluindo, se forem 3 pode-se apanhar mais do que se forem 4 pessoas...
Vá-se lá perceber o gajo que legislou isto?!
Obrigado uma vez mais e um abraço.

Ernesto Lima disse...

Boa tarde Roberto

Sobre o entendimento do gajo que legislou isto, parece-me que terá a ver com as MTs ilegais.
Isto é, se alguém levar mais de dois (total de 3), tudo bem... mais que isso pode ser, segundo o legislador MT ilegal e por tal é diminuída a quantidade de pescado a capturar.

Esqueceu-se o legislador ou quem lhe deu as ideias de que qualquer barco de MT para conseguir ganhar algum dinheiro, face às despesas que enfrenta, tem de levar no mínimo 6 pescadores e mesmo assim terá de assegurar uma frequência de saídas que não será fácil de conseguir, tendo em conta os preços que levam, as condições atmosféricas, a concorrência e o estado actual do país.

Mas é assim... as bases que também não ajudam muito.

Abraço

Pedro Tordo disse...

Boa Noite Srº Ernesto.

Mais umas belas pescarias,e um belo relato na continuação do que "o Mestre" (deixe-me trata-lo assim s.f.f) nos habituou.
A sua capacidade de análise, discernimento e aplicação das técnicas, são realmente pontos muito fortes em si que eu muito aprecio!!

Parabéns e continue a brindar-nos com os seus relatos.
Abrigado

Ernesto Lima disse...

Bom dia Pedro Tordo

Grato pelo comentário.

Sobre a questão do "mestre"... por conhecer tantos e tão bons que vivem duramente do mar, tenho alguma dificuldade em aceitar o título.

Abraço

Carlos Filipe disse...

Bom dia Ernesto.
só para constar, que tipo de caranguejo usa para as douradas? tenho de ver se agora em setembro começo a levar de vez em qd.

Ernesto Lima disse...

Boa tarde Carlos

Grato pelo comentário.

Utilizo o caranguejo de rio, verdes e castanhos, tendo a ideia de que os castanhos são mais produtivos, embora não tenha a certeza.

Penso no entanto que qualquer caranguejo pode servir.

Abraço

Carlos Filipe disse...

aqui costuma usar o de dois cascos, penso que seja o nome correcto.
este fim de semana já vou passar pela loja para ver se me arranjam, se não ainda vou ter de passar por setubal para comprar uma saca deles... esperemos que não

Ernesto Lima disse...

Bom dia Carlos.

O de dois cascos ainda é melhor, parece-me é que é bastante mais caro.

O que uso, sendo bem mais barato, serve muito bem.

Abraço